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A moda política de Zuzu Angel e a ditadura militar no Brasil

  • Foto do escritor: Nathalin Gorska
    Nathalin Gorska
  • 7 de jan. de 2025
  • 4 min de leitura

Atualizado: 8 de jan. de 2025

Em pleno período de Guerra Fria, a América do Sul foi tomada por ideias imperialistas, com influências diretas de governantes norte-americanos. Guiados por essas ideologias, com a premissa de impedir a disseminação do comunismo sobre as nações sul-americanas, foi iniciada uma onda da extrema-direita no poder, resultando em anos de sangrentas ditaduras pelo cone sul.


Iniciada em 1964, a ditadura militar brasileira foi instaurada no País após o presidente eleito, João Goulart, também conhecido como Jango, sofrer um Golpe de Estado, por defender e apoiar a reforma agrária e a reforma de base no Brasil, que prometiam políticas para reduzir as desigualdades.


A derrubada de Jango foi articulada e apoiada pela elite brasileira, em conjunto com os militares e a CIA, embasada no plano de derrubar o comunismo. A ditadura militar também contou com o apoio da mídia, por meio de veículos como o Diário dos Associados, Jornal do Brasil e Globo.


Uma vez instaurada a ditadura, o Brasil passou por 5 presidentes, que tiraram a liberdade de expressão, a humanidade e a vida de diversos brasileiros.


Um desses foi Stuart Angel, estudante de economia e integrante do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8). Stuart foi preso em 14 de maio de 1971 e passou por interrogatórios e violências, para revelar o paradeiro de Carlos Lamarca, outra figura na luta contra a ditadura. Após passar por torturas na Base Aérea do Galeão, ordenadas por brigadeiro Burnier, o jovem desapareceu.


O caso se tornou conhecido, sendo inclusive citado na música "Angélica" de Chico Buarque, que retrata a dor de sua mãe, Zuzu.


É nesse cenário que a moda, mais uma vez, encontra espaço para denunciar realidades políticas e sociais. Em 1971, no Consulado Brasileiro de Nova York, a estilista Zuzu Angel denunciou, por meio de sua coleção “International Dateline Collection III”, os horrores cometidos pela ditadura militar.


Em um dos vestidos mais emblemáticos de sua coleção, o vestido de protesto político, a estilista exibe elementos muito conhecidos pelos chamados ‘subversivos’: canhões, boinas do exército, pássaros, soldados e aviões - este último sendo uma referência aos voos da morte, comuns nas ditaduras latino-americanas, em que os presos políticos eram jogados no mar - mas o que chama atenção é a forma que Zuzu apresenta esses elementos. São desenhados com traços infantis e estampados em linho.


Vestido de protesto político [manga longa] - 13/09/1971  - Acervo Zuzu Angel
Vestido de protesto político [manga longa] - 13/09/1971  - Acervo Zuzu Angel

As interpretações ficam por parte do receptor: a escolha de estampa foi feita para ser singela e subliminar ou para representar famílias - em especial crianças - que, de forma indireta, foram afetadas pelo regime com a perda de seus pais.


Fechando o desfile, Zuzu Angel apareceu vestindo preto, com crucifixos na cintura, com um anjo no pescoço, que se tornaria o maior símbolo de sua marca e acervo.


O fato é que Zuzu Angel, por meio de sua coleção, mostrou para o mundo que a moda pode e deve ser política.


Por mais imperfeita que seja, a moda é uma prática globalmente dispersa, altamente visual e carregada de emoção. Precisamente por causa de sua presença mundial, a moda pode articular e potencialmente subverter construções e apresentações de identidade, perturbar tendências totalitárias e visualizar a dissidência política. (Bartlett, 2019, p. 56).


Estamos acostumados com a omissão. Muitas empresas e figuras públicas, quando se encontram em lugares de se posicionar, escolhem o silêncio. A coleção “International Dateline Collection III” é nada mais que uma tentativa corajosa de denunciar a violência cometida pelo Estado. E não é como se Zuzu não tivesse tentado por outros meios: denúncias e procuras ao seu filho foram, durante meses, a missão da estilista. Em 1971, escreveu a Thomas Dine (Secretário do Senador Frank Church) relatando a prisão e o desaparecimento de Stuart e a inflexão temática das suas coleções de moda.



Rascunho de carta de Zuzu Angel a Thomas Dine - 13/09/1971 - Acervo Zuzu Angel
Rascunho de carta de Zuzu Angel a Thomas Dine - 13/09/1971 - Acervo Zuzu Angel

Seu recado foi entendido, veículos Montreal Star e Chicago Tribune escreviam sobre a coleção e a política por trás de “International Dateline Collection III”. No Brasil, textos sobre Zuzu eram limitados às peças "não políticas” da estilista, por conta do aparato de censura brasileiro.


Além de ser uma mãe incansável, Zuzu se tornou um ícone contra um regime que matou milhares. Se levantou como uma figura que enfrentou os assassinos de seu filho e que, mesmo diante de todo o seu luto, entendia que a luta de Stuart, a luta contra os militares, deveria ser uma luta de todos. Que, assim como ela, diversas famílias se encontravam destruídas com o sumiço repentino de seus filhos.


Indomável, usou de um veículo poderoso - a moda - para mostrar ao mundo que no Brasil, ao contrário do que mostravam os jornais e propagandas da época, o povo não tinha paz, não enquanto os militares controlaram a nação.


Em uma era em que a política é amplamente desconfiada e cada vez mais divide as pessoas ao longo de linhas de nação, classe, raça, sexo e gênero, a moda pode efetivamente abordar injustiças antigas e atuais, não apenas as da moda, mas também as do mundo mais amplo. (Bartlett, 2019, p. 56)


Mas, infelizmente, a ditadura militar tomou mais uma vida. Em 1976, um acidente tirou a vida da estilista no Túnel Dois Irmãos, em São Conrado (RJ). Anos depois, em 1988, a Comissão Especial Sobre Mortos e Desaparecidos Políticos julgou o caso e reconheceu que Zuzu foi assassinada.


Ainda sim, a sua luta segue. Anos depois, na edição virtual da São Paulo Fashion Week, Zuzu e seu filho foram homenageados novamente por Ronaldo Fraga, que apresentou a coleção “Quem matou Zuzu Angel?”, lançada por ele em 2001.


A questão é: será que, em um país em que os militares saíram impunes, estamos livres do controle da direita ultraconservadora e da ditadura militar?


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