A representação do invisível nas obras de Lasar Segall
- Nathalin Gorska

- 19 de set. de 2024
- 3 min de leitura
Lasar Segall nasceu em 1889, em Vilna, Lituânia, que na época era parte do Império Russo. De família judaica, viveu na pele a perseguição, o ódio e a dor de abandonar o seu lar e partir para outro lugar. Com influências impressionistas e expressionistas, Segall se mostrou um artista que, através de suas experiências - que em sua maioria, transformam as perspectivas de qualquer ser humano - molda a sua arte para representar o "invisível".

É exatamente por meio da observação e retratação das diversas faces do sofrimento humano que Lasar Segall se tornou conhecido. Em O Navio dos Emigrantes (1941, óleo sobre tela), o artista trabalha um tema que, no Brasil, passou a crescer em 1850. Com a proibição do tráfego de pessoas em situação de escravidão, italianos, portugueses, espanhóis, alemães e outras nacionalidades passaram a chegar em terras brasileiras. O número cresceu ainda mais entre 1889 e 1930, quando mais de 3,5 milhões de estrangeiros ingressaram no país.
Mas a imigração no Brasil - assim como para outros territórios - não possui motivação única. A maior delas, sem dúvidas, é em decorrência de guerras, conflitos armados e repressão.
Segall conhecia e traduzia esses sofrimentos em sua arte. Seu quadro, que retrata os emigrantes em uma embarcação lotada, é cercado por ondas violentas, mas a aflição e os sentimentos de tensão, presentes na obra, são provenientes das pessoas. Com expressões apreensivas, cansadas e aterrorizadas, o autor imprime o que é perder tudo e embarcar em um mundo desconhecido.

Em Eternos Caminhantes (1919, óleo sobre tela), os refugiados e migrantes também são retratados. A obra expressa a busca por paz, a expectativa de pertencer a algum lugar e o desejo de resistir. A realidade por trás da obra é tão profunda que, durante o regime de Hitler, a obra foi retirada do acervo do Museu da Cidade de Dresden em 1933 e depois, exposta na mostra 'Arte Degenerada', um marco do regime nazista contra a arte moderna, em 1937, em Munique.

Refugiados (1922, guache e aquarela) trabalha mais uma vez a questão do exílio. O tema não poderia ser mais atual nos dias de hoje. Segundo dados do Alto-comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), no final de 2023, cerca de 24,9 milhões de refugiados necessitavam de proteção internacional e a população apátrida global foi estimada em 4,4 milhões.

Em Pogrom (1947, óleo sobre tela), Segall traz mais um debate, esse, ainda mais entrelaçado com sua história. Na Rússia Czarista - sistema político russo que esteve em vigor entre 1547 e 1917 - era comum as perseguições destinadas a grupos étnicos e religiosos. Pessoas eram agredidas e assassinadas nesses episódios, principalmente judeus. Templos e casas eram destruídos. Nessa obra, Segall retrata um grupo de pessoas mortas, jogadas junto com objetos, como se tivessem sido descartadas. Vemos também um texto, escrito em hebraico, além de um pássaro, que voa no fundo. O artista, por meio de sua obra, critica os genocídios que acontecem diante de nossos olhos e que deixamos de perceber.
Segall trabalha e critica a sociedade do seu tempo com muita maestria, mas também avisa e denuncia o que acontece nos dias de hoje.
Escutamos tantas vezes as palavras genocídio, sofrimento e guerra, que, talvez, para nós, perderam o real significado. Elas estão ligadas aos Yanomamis, no Brasil, e aos Mapuches, no Chile. Há anos, os povos tradicionais são assassinados diante dos nossos olhos. Palestina, Congo, Sudão, Tigray e Haiti sofrem com genocídios que disseminam sua cultura, população e anos de resistência. As lutas por territórios e controle continuam a tirar vidas e se tornam cada vez mais presente.
As obras de Lasar Segall traduzem os dias atuais como os noticiários, mas com o olhar e a sensibilidade de quem, em sua época, sofreu o que milhares de pessoas ainda estão acometidas. Segall deu à luz e revelou os invisíveis, mas será que a sociedade do século XXI aprendeu a enxergar?



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