- Nathalin Gorska

- 10 de fev. de 2025
- 3 min de leitura
Política, conservadorismo e tramas: o que está por trás do filme?
Essa resenha tem spoilers do filme!

Lançado em 2024, Conclave, dirigido por Edward Berger, é uma adaptação do best-seller homônimo escrito por Robert Harris. É importante destacar que o filme é uma obra de ficção, inspirada por elementos da realidade.
A trama do filme se desenrola após a morte do Papa e a eleição de um novo representante da Igreja Católica. O que torna Conclave interessante não é tanto o processo de escolha, mas as divisões políticas que permeiam todas as áreas da nossa sociedade — e a Igreja não seria diferente. Com candidatos ultra-conservadores e liberais, o filme se aproxima da realidade, uma vez que, especialmente em instituições tão influentes quanto a Igreja Católica, existem diferenças de pensamento e posicionamentos políticos.
É nessas diferenças que o longa desenvolve sua crítica. Se em todos os aspectos da nossa vida existem disputas, por menores que sejam, sobre interesses e ideologias, por que não haveria quando o cargo mais importante da Igreja Católica está vago? É importante ressaltar que Conclave não apresenta a Igreja como perdida durante as eleições, mas sim a liberdade dos votantes em escolher quais candidatos mais se alinham com suas ideologias.
Em um dos diálogos mais críticos do filme, um dos personagens questiona o motivo de ter que escolher o "menos pior", algo que claramente é visto nas últimas eleições políticas.
Mas a jogada mais genial do filme é o cerco se fechando para que se subentenda que a escolha de Benítez como novo Papa é, na verdade, a vontade de Deus.
O Cardeal Lawrence, ao longo do filme, afirma que a escolha do Papa será a vontade divina. Nesse momento, o ultra-conservador Tedesco estava liderando a votação. Na reunião seguinte, quando uma nova votação ocorre, uma bomba explode e rapidamente a cena corta para todos os participantes do conclave em uma sala, debatendo o que aconteceu. Tedesco, nesse momento, se levanta e insulta o islamismo, muçulmanos e religiões diferentes do catolicismo, além de demonstrar tremenda intolerância às minorias.
Assim como figuras conservadoras da vida real, que se aproveitam de momentos de fragilidade, Tedesco encontra uma brecha para atrair mais pessoas à sua causa intolerante. O que ele não esperava era que Benítez se levantaria como uma figura contrária, questionando seus métodos violentos de fala e ação. Essa é uma das cenas mais emocionantes do longa, seja pela fotografia, que enquadra Benítez como uma figura de esperança e resistência, seja pela sua fala sobre igualdade e justiça.
O resultado não poderia ser outro. Na votação seguinte, Benítez é escolhido como o próximo Papa. Para aqueles que pensaram que a crítica e o filme terminariam aí, o longa traz mais um plot twist.
Antes de assumir, o Cardeal Lawrence descobre que Benítez havia agendado um procedimento em uma clínica para retirar seu útero. Ele possui uma condição chamada distúrbio da diferenciação sexual (DDS), ou, como é mais popularmente conhecido, é hermafrodita. O procedimento havia sido marcado quando ele descobriu, já na vida adulta, que tinha um útero. No entanto, Benítez desiste da cirurgia, pois não queria mudar o corpo que Deus lhe deu.
Esse arco, para os conservadores da vez, é nada menos do que uma alfinetada. Quando discutem sobre pessoas trans, a grande tentativa dos conservadores é mostrar-se contra a mudança de seus corpos biológicos, alegando que se estaria mudando o que Deus deu. Mas, se eles defendem essa ideia, por que o fato de um Papa fictício ser hermafrodita os incomoda tanto? Ele simplesmente decidiu manter o corpo que Deus lhe deu.

