Reforma agrária, justiça social e estrutura fundiária em Torto Arado
- Nathalin Gorska

- 10 de jul. de 2024
- 4 min de leitura

Escrito pelo geógrafo e doutor em estudos étnicos africanos, Itamar Vieira Junior, o romance Torto Arado ganhou destaque no mercado literário brasileiro durante a pandemia. Retratando a história das irmãs Bibiana e Belonísia, o autor traz para os dias atuais as vivências dos trabalhadores rurais no Brasil.
Com uma narrativa formada através de três pontos de vista, o livro se inicia com o trágico acidente que tornou Bibiana e Belonísia uma só voz. A primeira parte do livro, fio de corte, contado pelo ponto de vista de Bibiana, a irmã mais velha, apresenta ao leitor o universo em que Torto Arado está inserido: a fazenda Água Negra, na Bahia.
As duas irmãs fazem parte de uma estrutura de trabalhadores rurais e quilombolas, que tiram o sustento da terra, enquanto trabalham para a família Peixoto, donos da fazenda. Ao mesmo tempo que estão centrados na realidade rural, a família de Zeca Chapéu Grande está fortemente ligada ao misticismo. Cultuando e celebrando as manifestações de sua religião, a família de Bibiana e Belonísia sedia as "Brincadeiras do Jarê", reuniões em que Zeca recebe em seu corpo os Encantados. Por meio da prática, o líder religioso obtém o conhecimento que o consagra como curador da fazenda.
A obra, apesar de ser classificada como ficção, não só bebe do dia a dia, vivido pelos trabalhadores rurais, mas é uma imersão por seus rios. Através de sua narrativa, é contado que a fazenda está localizada na região da Chapada Diamantina e as "Brincadeiras do Jarê" são a representação do espetáculo do Jarê, uma prática religiosa que possui elementos da cultura africana e indígena.
Não é só nessa fonte que o autor se inspira, mas traz em sua narrativa debates que se fazem cada vez mais presentes no Brasil atual: violência contra a mulher, reforma agrária, controle dos meios de produção, exploração da mão de obra do trabalhador, racismo e a identidade, tão presente nas palavras de Itamar Vieira.
É através desses pontos que Torto Arado desenvolve a sua trama. Bibiana, que tinha interesse por letras, se casa com Severo, e juntos, vão para a cidade, em busca de melhorar a realidade de suas famílias e da população de Água Negra. Belonísia, que tinha interesse pelos trabalhos manuais, continua na fazenda, mas inicia uma vida ao lado de Tobias.
Após anos afastadas, as irmãs voltam a se encontrar quando Bibiana e Severo retornam à Água Negra. Agora formada como professora, Bibiana volta diferente, e percebe que no campo ou na cidade, o trabalhador continua sendo explorado e sem direito à moradia digna. Ao lado de seu marido, que passou a colaborar com sindicatos e movimentos populares, a jovem inicia um movimento de conscientização da população.
Desde que chegaram à fazenda, muitos anos antes, nenhum dos trabalhadores tinha o direito de construir moradia fixa. Deviam trabalhar para o patrão e das plantações que faziam em casa, uma parte deveria ser direcionada para os superiores. Sem direitos, descanso e dignidade, o povo de Água Negra não é nada mais que o retrato da sociedade brasileira, em especial dos trabalhadores rurais e moradores da periferia.
Submetidos a longas jornadas, o trabalhador, na essência do regime capitalista, oferece a sua mão de obra em troca de sobrevivência até os dias de hoje, assim como acontece em Torto Arado. O conceito vai além da ficção, Karl Marx, filósofo, economista e teórico político, separa essa exploração em duas: o lucro ao patrão por extensão das horas de trabalho (sem remuneração adicional) e a redução do valor da mão de obra.
Mas a história de Bibiana e Belonísia vai além do amor entre duas irmãs, a resistência dos povos quilombolas e o silenciamento de comunidades marginalizadas. Através de datas, que Itamar utiliza, casualmente, é exposto que a narrativa se desenvolve durante o século XX, período em que um movimento social chegava ao Brasil: a reforma agrária.
Com objetivo de redistribuir as propriedades rurais, o movimento buscava aplicar a função social das terras, garantindo o bem-estar coletivo, direito à moradia para os trabalhadores rurais e gerando trabalho e renda para as famílias em que na terra trabalhavam. No Brasil, segundo relatório do instituto Imaflora, 5,3 milhões de imóveis rurais ocupam uma área de 422 milhões de hectares, revelando que até hoje, o Brasil mantém as cicatrizes de uma estrutura fundiária concentrada, que se instaurou, principalmente, durante as capitanias hereditárias.
Movido pelo desejo de possuir um pedaço de terra e ser dono de sua mão de obra, além de dignidade, por meio do trabalho, Severo se levanta como líder social em Água Negra, enfrentando o novo dono da fazenda, que com mão de ferro, passava cada vez mais a subtrair os direitos dos trabalhadores.
Assim como vemos em movimentos populares até hoje, a ideologia, pregada por Severo, não é abraçada por toda comunidade, mas o autor consagra ainda mais a inteligência e militância do jovem com o passar dos capítulos.
Com uma história similar ao do político e guerrilheiro Carlos Marighella, da organização política Ação Libertadora Nacional, que lutou contra o regime militar no Brasil, a história do jovem militante tem um preço de sangue.
Tal preço, serve como nada mais que um mártir, uma faísca para a indignação, que surge através da família de Bibiana e Belonísia, apoiadas pelo povo de Água Negra, que passa a se mobilizar em busca de seus direitos. O romance utiliza dos conhecimentos técnicos de Itamar, para, na atualidade, chamar atenção do leitor para um problema estrutural do Brasil, que perpassa até os dias de hoje: a má distribuição de terras, exploração do trabalho e a falha justiça social, que acomete, em sua maioria, as comunidades marginalizadas de nosso país.



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