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A história de todas as mulheres: Quem é Kim Jiyoung?

  • Foto do escritor: Nathalin Gorksa
    Nathalin Gorksa
  • 21 de mar. de 2024
  • 3 min de leitura

Autora sul-coreana retrata as dores e dificuldades de ser uma mulher no best-seller que abalou o patriarcado asiático



Imagem: Divulgação

Massacrada pela pressão de ser uma mulher, Kim Jiyoung está irritada, agindo de forma estranha e deprimida. Adquirindo comportamentos nunca apresentados durante seus 33 anos, ela passa a imitar a voz de mulheres: conhecidas e desconhecidas. Vivas e mortas.


Nascida na Coreia do Sul em 1982, Kim é de uma família de classe média, e é a segunda filha de seus pais. 


Com uma narrativa que trabalha as dificuldades de Kim de ser uma mulher, é apresentado para o leitor a falta de reconhecimento e afeto que a personagem recebia de seus pais desde criança. É nessa época, em que o patriarcado era fortemente presente, que a autora nos contextualiza em uma Coreia do Sul que mulheres renunciavam seus estudos para que os homens tivessem melhor acesso à educação. E assim acontece com Kim e todas as mulheres ao seu redor.


Ao entrar na divisão do livro intitulada "faculdade", nos deparamos com uma das comparações de maior peso moral na obra: Kim é um chiclete mastigado. Seu relacionamento anterior a transformou em objeto usado e descartado por um homem do exército.


O leitor logo descobre que o caminho da personagem não seria fácil. Ela se esforça, leva café para os colegas e se empenha, aparentemente mais do que qualquer um. É em um jantar empresarial, que é forçada a beber mais do que deseja, por um cliente, que insiste em assediá-la com comentários desrespeitosos. 


O casamento não foi diferente. A expectativa por filhos, em especial, meninos, sempre foi um tema presente da cultura sul-coreana e a autora contextualiza de forma profunda os embates e a pressão que Kim enfrenta em sua mente.


"O que você vai abrir mão?"            


Em uma abordagem que talvez seja a questão mais universal do livro até então, Cho nos apresenta Kim grávida, deixando seu trabalho para cuidar da filha. O marido, para apoiá-la, utiliza da clássica história "não pense no que vai abrir mão, mas sobre o significado e alegria de ser mãe". Ele promete que vai ajudá-la com a casa e com os cuidados da filha. 


Injustiça, dor e insignificância se fazem presentes e compartilhados com o leitor quando Kim percebe que sua vida mudaria, e a partir daquele momento seria realocada como dona de casa, esposa e mãe, mesmo que suas ambições fossem outras.


As violências da vida de Kim não param por aí. Afinal, que motivo uma mulher teria para reclamar quando temos acesso a máquinas de lavar e aspiradores de pó? E que mãe irresponsável deixaria seus filhos sob o cuidado de outras pessoas? Na verdade, todas gostaríamos de ser "parasitas" que vivem tomando café pelas ruas enquanto o marido trabalha.


O fator mais arrebatador da história é que o livro não é de Kim Jiyoung. É a história de todas as mulheres. Das que desistem de seus sonhos e são censuradas. Das que são violentadas física e intelectualmente. É a história de mulheres diminuídas por homens e das que são tratadas como chicletes mastigados e parasitas. E é isso que faz com que Kim Jiyoung seja todas as mulheres. 



A autora trabalha a dor de uma mulher desde o seu nascimento e não só apresenta a narrativa, como também inclui em seu livro notas de rodapés, com artigos que abordam e comprovam as denúncias citadas por Cho Nam-Joo. Talvez a autora utilize essa ferramenta, pois sabia o que viria no futuro: críticas abrasivas sobre seu livro, que abalou a estrutura patriarcal da Coreia do Sul. 



Imagem: The New York Times / Divulgação

A utilização das notas de rodapé sem o contexto histórico e político de seu país de origem pode causar estranheza nos leitores, mas ao decorrer das páginas, a autora prova seu ponto em se utilizar de inúmeras referências. Seu único erro talvez tenha sido a forma de inserção dos artigos, colocadas no meio de diálogos, os tornando meramente formais e os desassociando da história.


Cho Nam-Joo compensa, então, ao trazer mais uma surpresa ao livro: em 1982, o nome mais registrado da Coreia do Sul foi Kim Jiyoung. Fato que liga com maestria o fato de Kim personificar outras mulheres. Simplesmente porque ela é todas as mulheres.  

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