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Notícias, reviews e críticas sobre o mundo geek

A Geek Literária



Lily e Ryle de "É Assim que Acaba"
Divulgação / Sony Pictures

Inspirado no livro homônimo, escrito por Colleen Hoover, É Assim que Acaba, estrelado por Blake Lively e Justin Baldoni chegou neste fim de semana aos cinemas. O longa era um dos mais esperados para o segundo semestre de 2024, devido ao sucesso que Colleen possui nas redes sociais. 


A narrativa acompanha Lily, que precisa retornar a Boston após a morte de seu pai. Ao decidir ficar na cidade, a personagem se encontra, por acaso, com um neurocirurgião, Ryle, com o qual, meses depois, engata um romance. 


É a partir desse relacionamento que a história do livro se desenrola. Lily passa a ser vítima de violência doméstica, e em uma escolha acertada da direção, o filme aborda o relacionamento abusivo de uma maneira interessante: inicialmente, o roteiro faz parecer que as agressões foram acidentes, para, no final, revelar a verdadeira natureza dos acontecimentos.


Durante todo esse tempo, Ryle mantém comportamentos abusivos com sua parceira, mas a situação se agrava quando Lily reencontra um antigo amor, Atlas, que percebe o comportamento agressivo de Ryle e os machucados da personagem principal.


A partir do momento em que Ryle descobre a identidade de Atlas e que Lily ainda possui sentimentos pelo antigo parceiro, o neurocirurgião se torna ainda mais violento. O longa acerta ao mostrar a força de Lily frente ao relacionamento abusivo e às situações em que foi acometida, além do apoio incondicional de Atlas. No entanto, a produção peca ao não tratar a violência doméstica, ponto central da narrativa, com a profundidade que o tema necessita.


Segundo pesquisa do Observatório da Mulher, 48% das mulheres brasileiras já sofreram algum tipo de violência doméstica ou familiar. Dados também levantados pelo DataSenado em 2023 revelam que 30% das mulheres do país já sofreram algum tipo de violência doméstica ou familiar provocada por um homem e que 79% dessas mulheres possuem renda de até dois salários mínimos.


A violência contra a mulher deve ser debatida, ainda mais em um contexto de crescimento do feminicídio no país. Com o lançamento do filme, era esperado um espaço maior para acolhimento e diálogo, fato que não obteve tamanha divulgação durante a press tour do longa.


Em contrapartida, o diretor e ator do filme, Justin Baldoni, que interpretou Ryle, divulga em suas redes sociais e também em entrevistas a importância de ajudar mulheres em situação de violência doméstica.


Além disso, outro problema afetou a história e o lançamento do filme: o filho de Colleen Hoover, Levi, foi acusado no Twitter de assédio sexual contra uma menor de idade, conforme detalhado pela suposta vítima em sua conta. Ela afirma que, ao tentar contatar Colleen, foi bloqueada das redes sociais. Apesar das acusações, Colleen não se pronunciou. As informações, compartilhadas nas redes sociais, tomaram grandes proporções e a comunidade literária passou a cobrar respostas sobre o caso, visto que uma parte da temática abordada pela autora em seus livros é pautada em assédio sexual e violência doméstica. A autora segue em silêncio.

 
 
 
  • Foto do escritor: Nathalin Gorska
    Nathalin Gorska
  • 10 de jul. de 2024
  • 4 min de leitura

Capa do livro Torto Arado
Capa do livro "Torto Arado" / Reprodução

Escrito pelo geógrafo e doutor em estudos étnicos africanos, Itamar Vieira Junior, o romance Torto Arado ganhou destaque no mercado literário brasileiro durante a pandemia. Retratando a história das irmãs Bibiana e Belonísia, o autor traz para os dias atuais as vivências dos trabalhadores rurais no Brasil.


Com uma narrativa formada através de três pontos de vista, o livro se inicia com o trágico acidente que tornou Bibiana e Belonísia uma só voz. A primeira parte do livro, fio de corte, contado pelo ponto de vista de Bibiana, a irmã mais velha, apresenta ao leitor o universo em que Torto Arado está inserido: a fazenda Água Negra, na Bahia. 


As duas irmãs fazem parte de uma estrutura de trabalhadores rurais e quilombolas, que tiram o sustento da terra, enquanto trabalham para a família Peixoto, donos da fazenda. Ao mesmo tempo que estão centrados na realidade rural, a família de Zeca Chapéu Grande está fortemente ligada ao misticismo. Cultuando e celebrando as manifestações de sua religião, a família de Bibiana e Belonísia sedia as "Brincadeiras do Jarê", reuniões em que Zeca recebe em seu corpo os Encantados. Por meio da prática, o líder religioso obtém o conhecimento que o consagra como curador da fazenda.


A obra, apesar de ser classificada como ficção, não só bebe do dia a dia, vivido pelos trabalhadores rurais, mas é uma imersão por seus rios. Através de sua narrativa, é contado que a fazenda está localizada na região da Chapada Diamantina e as "Brincadeiras do Jarê" são a representação do espetáculo do Jarê, uma prática religiosa que possui elementos da cultura africana e indígena. 


Não é só nessa fonte que o autor se inspira, mas traz em sua narrativa debates que se fazem cada vez mais presentes no Brasil atual: violência contra a mulher, reforma agrária, controle dos meios de produção, exploração da mão de obra do trabalhador, racismo e a identidade, tão presente nas palavras de Itamar Vieira.


É através desses pontos que Torto Arado desenvolve a sua trama. Bibiana, que tinha interesse por letras, se casa com Severo, e juntos, vão para a cidade, em busca de melhorar a realidade de suas famílias e da população de Água Negra. Belonísia, que tinha interesse pelos trabalhos manuais, continua na fazenda, mas inicia uma vida ao lado de Tobias.


Após anos afastadas, as irmãs voltam a se encontrar quando Bibiana e Severo retornam à Água Negra. Agora formada como professora, Bibiana volta diferente, e percebe que no campo ou na cidade, o trabalhador continua sendo explorado e sem direito à moradia digna. Ao lado de seu marido, que passou a colaborar com sindicatos e movimentos populares, a jovem inicia um movimento de conscientização da população.


Desde que chegaram à fazenda, muitos anos antes, nenhum dos trabalhadores tinha o direito de construir moradia fixa. Deviam trabalhar para o patrão e das plantações que faziam em casa, uma parte deveria ser direcionada para os superiores. Sem direitos, descanso e dignidade, o povo de Água Negra não é nada mais que o retrato da sociedade brasileira, em especial dos trabalhadores rurais e moradores da periferia.


Submetidos a longas jornadas, o trabalhador, na essência do regime capitalista, oferece a sua mão de obra em troca de sobrevivência até os dias de hoje, assim como acontece em Torto Arado. O conceito vai além da ficção, Karl Marx, filósofo, economista e teórico político, separa essa exploração em duas: o lucro ao patrão por extensão das horas de trabalho (sem remuneração adicional) e a redução do valor da mão de obra.


Mas a história de Bibiana e Belonísia vai além do amor entre duas irmãs, a resistência dos povos quilombolas e o silenciamento de comunidades marginalizadas. Através de datas, que Itamar utiliza, casualmente, é exposto que a narrativa se desenvolve durante o século XX, período em que um movimento social chegava ao Brasil: a reforma agrária.


Com objetivo de redistribuir as propriedades rurais, o movimento buscava aplicar a função social das terras, garantindo o bem-estar coletivo, direito à moradia para os trabalhadores rurais e gerando trabalho e renda para as famílias em que na terra trabalhavam. No Brasil, segundo relatório do instituto Imaflora, 5,3 milhões de imóveis rurais ocupam uma área de 422 milhões de hectares, revelando que até hoje, o Brasil mantém as cicatrizes de uma estrutura fundiária concentrada, que se instaurou, principalmente, durante as capitanias hereditárias.


Movido pelo desejo de possuir um pedaço de terra e ser dono de sua mão de obra, além de dignidade, por meio do trabalho, Severo se levanta como líder social em Água Negra, enfrentando o novo dono da fazenda, que com mão de ferro, passava cada vez mais a subtrair os direitos dos trabalhadores. 


Assim como vemos em movimentos populares até hoje, a ideologia, pregada por Severo, não é abraçada por toda comunidade, mas o autor consagra ainda mais a inteligência e militância do jovem com o passar dos capítulos. 


Com uma história similar ao do político e guerrilheiro Carlos Marighella, da organização política Ação Libertadora Nacional, que lutou contra o regime militar no Brasil, a história do jovem militante tem um preço de sangue.


Tal preço, serve como nada mais que um mártir, uma faísca para a indignação, que surge através da família de Bibiana e Belonísia, apoiadas pelo povo de Água Negra, que passa a se mobilizar em busca de seus direitos. O romance utiliza dos conhecimentos técnicos de Itamar, para, na atualidade, chamar atenção do leitor para um problema estrutural do Brasil, que perpassa até os dias de hoje: a má distribuição de terras, exploração do trabalho e a falha justiça social, que acomete, em sua maioria, as comunidades marginalizadas de nosso país.

 
 
 

A peça, criada e dirigida por Talita Cabral e Rodrigo Régis, leva o espectador para a jornada de uma jovem do interior, que deseja conhecer seu cantor favorito

 


Catarina e Elpídio em trem para São Paulo
Imagem 1: CIA Navega Jangada / Reprodução

Não é de agora que a brasilidade passou a ser reconhecida em composições culturais. A busca pelo que é ser, de fato, brasileiro, está presente cada vez mais em nosso meio, seja por reconhecimento de que a cultura de nosso país tupiniquim é rica e diversa, ou por trends que ocupam cada vez mais espaço nas redes sociais.

 

A peça-musical “Os quatro cantos de Elpídio” celebra com grande respeito e fidelidade um pilar muito importante da cultura brasileira: os “caipiras”. A história é completamente enraizada no interior de São Paulo. A personagem principal, Catarina, embarca em uma jornada desafiadora e decide deixar sua cidade natal, São José do Barreiro, e ir viajar até os estúdios Vera Cruz, na cidade de São Paulo, para encontrar o ídolo de sua mãe, o cantor de “A dor da saudade”, Amácio Mazzaropi.

 

Ao deixar sua cidade, a jovem abandona seu pretendente, Zé, e embarca em um trem rumo a São Paulo. No caminho, conhece seu companheiro de viagem, que a guia na jornada para encontrar o ator e cantor que estava procurando. Chegando a São Paulo, Catarina encontra Mazzaropi, e apesar da grata surpresa, a moça do interior recebe o inesperado. Descobre que, na verdade, Mazzaropi é só o intérprete das canções ao qual ela tanto admira. Assim, uma nova jornada a espera: uma viagem até São Luiz do Paraitinga para encontrar Elpídio dos Santos, o verdadeiro compositor.

Atores e músicos narram a história de Catarina
Imagem 2: CIA Navega Jangada / Reprodução

A obra em todos os momentos acerta ao respirar música - tão presente na história, que é impossível não se emocionar com a forma em que as composições do caipira Elpídio se entrelaçam com a vida de Catarina.

 

Os atores, além de darem vida com maestria aos personagens, também fazem toda a trilha sonora da peça, contagiando ainda mais o público, que por muitas vezes também é inserido na peça por meio de interações com os personagens.

 

O trabalho de pesquisa para a produção da peça teatral também deve ser levado em conta, uma vez que os diretores e a equipe fizeram uma verdadeira imersão na vida e composições de Elpídio de Sousa, abordando seus grandes sucessos como artista.

 

A peça, além disso, mostra a paixão de Catarina pela música, em uma época não tão favorável para mulheres que desejavam seguir seus corações. Catarina encontra em sua jornada musical, contada por 8 músicos e festeiros, liberdade, emoções, desilusões, paixão e por fim, a dor da saudade, que cantada por várias vezes durante a peça, acomete a jovem.

 

A viagem através de cidades do interior, de uma capital em ascensão, do carnaval e muita brasilidade, é que faz a narrativa de “Os quatro cantos de Elpídio” cativar o espectador e transmitir o que é de fato ser brasileiro e como celebrar as suas origens. 


A obra está disponível para ser assistida no canal do YouTube do Sesc!

 
 
 
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